Marcéu azul

Em 23.10.2016   Arquivado em Textos

marceu

Estou sentado no escritório da casa de praia. Comprei persianas. Muitas. Quem imaginaria que as janelas de vidro que eu tanto fiz questão de colocar aqui iam se tornar um incômodo. A imensidão do mar se estende por todo o campo de visão e, ironicamente, me sufoca.

Olhar para o mar dói. Porque o mar sempre me lembrou você. Tem a mesma cor dos seus olhos, e a calmaria que, quando menos se espera, se transforma em bravura, a maré me invadindo completamente.

Azul. Profundo. Intenso.

E de repente não é mais o mar que me encara, mas você. O azul dos seus olhos ficando mais escuro, mais cheio de força, de raiva. Querendo transbordar, mas você não deixa escapar nada pelas beiradas. A lembrança me atinge como uma onda surpresa.

Não consigo distinguir o que é o azul do mar e o que é o azul do céu, porque em algum ponto eles se tornam um só e isso é tão injusto, porque agora não consigo mais encarar o céu também. Não há mais azul pra mim. Nenhum tom dele.

Passei a trabalhar de portas e janelas fechadas, para ver se a dor diminuía. Não funcionou. A página continuou em branco. Pior do que qualquer bloqueio que já tive em trinta anos. Mas então hoje eu deixei tudo aberto. Deixei o sol entrar e refletir o azul do marcéu. E quase funcionou, no entanto, não refletiu o azul dos seus olhos.

Fecho as persianas de novo. Não há brecha para luz do sol. Não há mais mar ou céu. Ou marcéu. Ou você. Continua sufocante, com persianas abertas ou fechadas. Olho ao redor e percebo que falta um pouco de cor nessa casa, de luz para fazê-la refletir em todos os cômodos. Ou talvez esteja faltando cor na minha vida por inteiro.

O celular toca pela quinta vez, me lembrando de que a meta para hoje é de 400 palavras. Mas a página do livro continua em branco, e tudo que eu consegui preencher foram as linhas dessa carta que você sequer irá receber, porque o azul dos seus olhos agora me parece distante demais.

Já é noite quando consigo encarar o oceano a minha frente. A imensidão azul desapareceu. No escuro, em frente ao mar eu me sinto estranho. Sem cor.

 

Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. O tema de outubro escolhido por mim foi CORES.

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