Livros | Todo Dia

Em 26.08.2016   Arquivado em Book Club, Livros

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Se você pudesse ser uma pessoa diferente todos os dias, você seria?

Todos os dias, A acorda em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.

“Passei anos encontrando pessoas sem nunca conhecê-las, e hoje de manhã, neste lugar, com esta garota, sinto o impulso mais leve de querer saber. E, num momento de fraqueza ou de coragem de minha parte, escolho seguir o impulso. Escolho saber mais.”

Logo de cara achei a proposta do livro bem interessante e não demorou muito para David Leviathan me ganhar. Não só amei a escrita dele, como também me identifiquei com ela, o que tornou a leitura bem tranquila e rápida. Isso sem falar de todas as passagens que eu saí marcando feito uma louca ainda no primeiro capítulo.

O mais incrível do livro é que todos os personagens, todas as pessoas que passam pela vida de A, nos tocam de uma forma diferente. Não importa se ele é menino ou menina, cada um deles tem algo a nos mostrar. Foi uma forma bem inteligente e dinâmica de abordar vários assuntos de uma só vez. Cada um deles é único e vive uma vida diferente da outra. Somos levados a conhecer, mesmo que por apenas 24 horas, a realidade de cada pessoa, seja rico ou pobre, numa família bem estruturada ou não.

“Se você olhar para o centro do universo, existe frieza lá. Um vazio. No final das contas, o universo não se importa conosco. O tempo não se importa conosco. É por este motivo que temos que cuidar um do outro.”

A se apaixona por Rhiannon quando é um menino, quando está no corpo de Justin. Mas nos dias em que acorda menina continua apaixonado por ela. A não sabe se é homem ou mulher, e pra ele o gênero não importa. O amor sim. Para A é fácil amar Rhiannon independente de estar no corpo de um menino ou de uma menina, mas ele percebe que nem todo mundo pensa assim. A forma como o autor escolheu abordar sobre gênero e sexualidade é bem interessante e resulta em reflexões lindas.

“Na minha experiência, desejo é desejo, amor é amor. Nunca me apaixonei por um gênero. Apoixonei-me por indivíduos.”

O amor é contado no livro de uma forma incrível e intensa, que faz você querer se jogar com tudo. Todo Dia é um dos romances mais envolventes que eu li, além de um dos livros que mais me marcaram até agora. É verdadeiro.

“Queria que o amor conquistasse tudo. Mas o amor não conquista tudo. Ele não pode fazer nada sozinho. Ele depende de nós para conquistar em seu nome.”

“Que história é essa sobre o instante em que você se apaixona? Como uma medida tão pequena de tempo pode conter algo tão grande? De repente, percebo por que as pessoas acreditam em déjà vu, por que acreditam em vidas passadas, porque não há meio de fazer com que os anos que passei na Terra sejam capazes de resumir o que estou sentindo. O momento em que você se apaixona parece carregar séculos, gerações atrás de si – tudo isso se reorganizando para que essa interseção precisa e incomum possa acontecer.”

David Leviathan soube falar diretamente com os jovens, sobre seus medos e inseguranças, sobre todas as relações, seja com os namorados ou, principalmente, com a família. Mostrou como a sociedade ainda julga muito pelas aparências, mesmo sem perceber.

Todo Dia questiona se a grama do vizinho é realmente mais verde, se vale a pena passar por cima dos outros para conseguir o que se quer. É um livro que fala sobre princípios e limites, e até onde eles podem ou não ser ultrapassados. É um livro que fala sobre pessoas para outras pessoas, ao mesmo tempo que acaba falando sobre nós mesmos. É simplesmente maravilhoso.

“A bondade tem a ver com quem você é, enquanto a gentileza tem a ver com o modo como quer ser visto.”

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