Livros | Nós

Em 10.05.2016   Arquivado em Livros

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” – Eu estava ansioso para envelhecermos juntos. Eu e você, envelhecermos e morrermos juntos.
– Douglas, por que alguém em sã consciência ficaria ansioso para isso? “

Eu sou apaixonada pelos livros do David Nicholls, porque amo a forma como suas histórias e seus personagens são extremamente reais, gente como a gente que tem problemas reais, podendo representar qualquer um de nós em algum momento das nossas vidas. Com “Nós” não foi diferente.

Douglas Petersen entende que a esposa, Connie, queira se “redescobrir” agora que o filho do casal está indo para a faculdade. Mas tinha pensado que os dois se redescobririam juntos e não que ela pediria o divórcio. Douglas vê então, na viagem de férias em família, intitulada de “o grande tour”, uma oportunidade de aproximar os três, ajudá-lo a ganhar o respeito do filho Albie e, principalmente, fazer Connie se apaixonar de novo por ele.

“… Espero para observá-la envelhecer desde que nos conhecemos. Por que isso deveria me incomodar? É o rosto em si que eu amo, não este rosto aos vinte e oito, trinta e quatro ou quarenta e três anos. É este rosto. “

É aquele típico drama familiar que tanto me atrai e eu não consigo resistir. Com uma escrita bem característica, David Nicholls nos apresenta uma família completamente diferente entre si. Um marido e uma esposa que comprovam que os opostos realmente se atraem.

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O livro é divido em nove partes, começando desde a saída de Londres até o retorno à cidade da Rainha, passando por todos os destinos do grande tour. É narrado em primeira pessoa pelo próprio Douglas em capítulos curtinhos e que não seguem uma ordem cronológica, sempre intercalando momentos da viagem com fatos do passado, como o dia em que conheceu a esposa, a notícia da gravidez, as primeiras vezes que estiveram nas cidades do grande tour, juntos ou separados, a relação deles com o filho, com seus pais.

É realmente bonito acompanhar a história de Douglas e Connie e ainda mais bonito ver a forma como ele fala da esposa, sempre com muito amor e admiração, como se ela fosse a mulher mais linda e incrível do mundo. Conhecer a trajetória dos dois, os desafios e alegrias que passaram ao lado um do outro em tantos anos de casamento é fundamental para a trama do livro.

” A luz viaja de forma diferente em uma sala que abriga outra pessoa, refletindo e refratando de modo que, mesmo quando Connie estava em silêncio ou dormindo, eu sabia que ela estava ali. Eu adorava a evidência de sua presença e a promessa de seu retorno, o jeito que ela mudava o cheiro daquele pequeno e sombrio apartamento.”

Mas “Nós” também uma verdadeira viagem, uma aula de arte e tem até um certo cunho científico. Durante a leitura do livro somos facilmente transportados para Londres, Paris, Amsterdã, Veneza e todas as outras cidades por onde os Petersen passam. Connie é uma especialista em Arte, então a todo momento somos apresentados e reapresentados a Van Gogh, Da Vinci, Monet e vários outros artistas famosos, bem como suas obras e até um pouquinho de suas histórias. Douglas, por sua vez, é bioquímico, e está sempre falando da ciência com muita admiração, sempre procurando estabelecer a importância e a veracidade científica de tudo.

Como tudo que David Nicholls escreve, “Nós” é tão verdadeiro que às vezes chega a doer e toca, de alguma maneira, o leitor. Porque é intenso e traz uma temática real de uma forma dolorosamente otimista. Albie é quase um estranho para o pai e acompanhar a relação deles dois chega a ser angustiante na maior parte do tempo. Douglas acredita que é capaz de salvar seu casamento e conseguir uma conexão com seu filho mesmo com alguns anos de atraso e não mede esforços para isso. É um livro sobre família, sobre não só criar laços, mas também mantê-los, o que pode ser ainda mais difícil. É um livro sobre saber lidar com as diferenças, sobre respeitar escolhas e o espaço de cada um.

” Em uma luta você se alia às pessoas que ama. É assim que as coisas são.”