Livros | Ligações

Em 16.03.2016   Arquivado em Livros

ligações

Minha experiência com Eleanor & Park e Fangirl foi bastante positiva, com Ligações não foi diferente. Aliás, Ligações foi uma grande e maravilhosa surpresa. Vejam bem, eu não esperava, de maneira alguma, gostar de um livro aparentemente tão fantasioso. Eu prefiro sempre histórias mais reais e, apesar de adorar essa vibe de viagem no tempo (obrigada, doctor who), é preciso ir muito mais além disso para me conquistar. E foi o que Rainbow Rowell fez nesse livro. Ela foi muito mais além de um telefone antigo que, magicamente, liga para um amor do passado.

Georgie sabe que seu casamento está estagnado, mesmo que o amor entre ela e o marido ainda seja intensamente recíproco. O relacionamento dos dois acabou por ficar em segundo plano, em meio a trabalho, filhas e um melhor amigo. Dois dias antes da tão planejada viagem para passar o Natal com a família do marido em Omaha, Georgie diz a ele que não poderá ir, por conta de uma proposta de trabalho irrecusável. Ela sabia que ele ficaria chateado, mas não imaginou que ele faria as malas e viajaria sozinho com as crianças.  E então Georgie acaba descobrindo uma forma de se comunicar com o Neal do passado, quando eles ainda eram namorados.

Não foi a sinopse que me agradou e, se o livro não fosse escrito pela Rowell, eu acho que jamais o leria, porque achei a proposta ousada demais para o meu estilo de livro. Mas Ligações tem grandes diferenciais que me fizeram devorar tudo em um único dia. Não se trata de uma viagem no tempo, não exatamente. Na realidade, é uma oportunidade para Georgie enxergar a forma como vem levando sua vida, uma oportunidade para repensar o seu relacionamento e suas atitudes.

“Não era esse o sentido da vida? Encontrar alguém com quem compartilhá-la? E se você já acertou nisso, o que mais poderia dar errado? Se você estivesse ao lado da pessoa que ama mais do que tudo no mundo, o resto não acabaria sendo só o cenário?”

A família de Georgie é meio fora dos padrões. O pai sumiu assim que ela nasceu, a irmã nasceu quando ela já tinha 18 anos, a mãe casou-se com um rapaz que é só três anos mais velho que a própria George (e ela acha realmente constrangedor quando ele tenta dar uma de pai). E as cenas com a família dela são bem divertidas. Na verdade o livro todo é bem humorado e escrito de forma muito leve, o que facilita bastante a leitura, não a tornando nem um pouco cansativa.

Aliás, toda essa “despadronização” da família de Georgie é algo realmente legal porque mostra como a autora conseguiu trazer à tona certos “tabus” de uma forma bem sutil, divertida e encantadora. Afinal tem toda uma admiração rondando o fato de ter sido Neal a abdicar a chance de uma carreira para se dedicar à casa e às filhas, aos sonhos da esposa.

Foi gostoso de ler o livro, porque viajei no tempo junto com a Georgie. todas as ligações demoradas e as conversas que ela tem com o Neal do passado me lembraram de quando eu fazia o mesmo no meu namoro. E quando eu me identifico com o livro ou com algum personagem não tem jeito, eu sinto a leitura de uma maneira muito mais profunda.

rainbow

Ligações, diferente de Fangirl e Eleanor & Park, não é um livro sobre jovens  e muito menos acredito que seja para jovens. É um livro sobre casamento, sobre as mudanças inevitáveis que ele causa e a autora questiona, várias e várias vezes, se só o amor é suficiente em um relacionamento. Ligações é sobre as escolhas que fazemos na vida. Sobre se arriscar.

“Você conhece uma pessoa, se apaixona, e torce para que essa pessoa seja a certa. E aí, em determinado momento, você tem que apostar suas fichas. Tem que fazer esse compromisso e torcer para dar certo.”

Foi muito legal acompanhar a história de Georgie e Neal desde o começo, mesmo que contada no livro sem uma ordem cronológica. Ligações é repleto de flashbacks e, embora isso tenha sido ótimo para o desenvolvimento da trama, em algumas vezes eu ficava meio confusa tentando entender em que época aquilo estava, de fato, acontecendo. Ver o amadurecimento de Georgie, proporcionado pelo misterioso telefone amarelo, é super gratificante, é o que faz, para mim, o livro valer a pena. É a essência da trama. Em momento algum duvidei do amor que um sente pelo outro, chega a ser palpável. E acredito que seja isso que torne o livro tão bonito.

No entanto, a falta de uma explicação, crível ou não, foi algo que me incomodou. O telefone antigo é algo fundamental na trama, é o que faz tudo acontecer e em determinado ponto ele simplesmente “parou de funcionar”, sem mais nem menos. Eu esperava uma explicação fantasiosa que fosse para toda essa coisa de ligar para o passado, mas simplesmente não teve explicação alguma. E sim, nós podemos deixar esse detalhe de lado e focar em todo o significado do livro, mas ainda assim foi meio decepcionante sair sem uma justificativa ruim que fosse.

Mas o que ficou foi a ideia de que talvez todos nós precisemos “voltar no tempo” de vez em quando, rever algumas atitudes, lembrar de bons momentos para assim, quem sabe, valorizar mais as pessoas, repensar nossas escolhas ou até mesmo mudar radicalmente a nossa forma de levar a vida, arriscar-se.