Foi proclamado o dia da saudade

Em 24.01.2016   Arquivado em Londres, Pessoal

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Eram 3 horas da manhã do recém iniciado 24 de janeiro de 2016 e, apesar do sono, eu não conseguia dormir. Levantei da cama e peguei minha caixinha de memórias, aquela onde guardo cartinhas, bilhetes, desenhos e todo tipo de recordação desde a minha pré-adolescência. Retirei da caixa todos os tickets, panfletos, fotos referentes ao intercâmbio e observei tudo por um longo período de tempo. Eu não precisava disso para lembrar dos detalhes da maior aventura que tive nos meus 20 anos de vida, mas mesmo assim me permiti passar alguns minutos tocando, observando, sorrindo. Revivendo. Estava proclamado o dia da saudade.

Claro que acordo diariamente sentindo saudade da rotina que criei em Londres; do céu cinza, do frio, do caminho de casa até o metrô e do metrô até a escola. E eu sou capaz de refazer esse caminho de olhos fechados mais de uma vez. Eu refaço frequentemente na minha cabeça. Alguns dias sinto mais saudade do que outros. Mas ao abrir a caixa e me deparar com tudo aquilo eu tive certeza de que 24 de janeiro era o meu dia oficial da saudade.

Um ano depois e ainda continuo com a sensação de que não foi real. E continua tudo tão incrível, tão mágico, exatamente como um ano atrás. É surreal poder ler um livro ou assistir a um filme ou série que se passe em Londres e sorrir boba ao reconhecer cada lugarzinho da cidade. E toda vez que eu choro eu nunca tenho certeza se é de saudade ou porque finalmente consegui realizar um sonho ou um misto de tudo isso. E por mais que eu procure palavras para expressar a confusão de sentimentos que acontece comigo sei que jamais conseguirei encontrar. E sei também que nunca vou conseguir parar de falar sobre, mesmo que eu seja uma velhinha conversando com os bisnetos.

Algumas coisas lhe marcam tanto que você tem certeza de que jamais irá esquecer um detalhe sequer, não importa quanto tempo passe. E mesmo assim eu sigo com medo de esquecer. Talvez seja por isso que eu guardo todos os tickets de museus, a passagem da companhia aérea, os quinhentos mapinhas do metrô que eu ganhava a cada vez que me perdia, a carteirinha da escola, o cartão do metrô. Talvez seja por isso que, para qualquer lado do meu quarto que eu olhe, eu veja uma foto do Big Ben ou da London Eye ou da Trafalgar Square.

Ou talvez eu guarde tudo isso para me lembrar que persistir num sonho durante tantos anos valeu a pena.

Dia 24 de janeiro foi proclamado o dia da saudade, mas também pode ser o dia de renovar as esperanças em um novo sonho ou o dia de comemorar a mudança que o intercâmbio me proporcionou. O dia para relembrar que, se eu ainda não cansei de Londres, então ainda não cansei da vida, e que ainda tem muita coisa para ser vivida.

“When a man is tired of London, he is tired of life.”