Categoria "Textos"

Texto | Flor de inverno

Em 30.04.2015   Arquivado em blogagem coletiva, Textos

calor e cor

Fazia frio quando ele chegou com as flores. Ela estava escondida embaixo das cobertas e de várias camadas de roupa. Ela deu um sorriso quando o perfume dele preencheu a sala. Se perguntava onde ele teria conseguido as flores em pleno inverno, os jardins da vizinhança estavam cobertos pela neve, não daria para ele ter roubado uma flor ou duas como fazia quase sempre pelo simples prazer de vê-la esconder o sorriso enquanto tentava brigar com ele por tal atitude.

Mas ele era assim, surpresa. Uma gama de confusões sem resposta, desde quando a mão dele tocou a dela pela primeira vez. Foi quando a confusão se instalou, assim, sem mais nem menos, sem nenhuma explicação aparente. Era um dos muitos efeitos que ele causava nela só de estar por perto. Mesmo que em pensamento.

Ela escondeu o sorriso e o corpo ainda mais debaixo das cobertas. Ele se aproximou devagar, com a respiração ainda um pouco agitada pelo frio que fazia lá fora. Mas ele gostava da sensação, o ritmo do coração dela tentando acalmar o seu. Ele sussurrou um oi baixinho e entregou as flores, meio murchas, mas de uma cor tão linda e alegre que ela nem se importou.

E de repente o coração dela se aqueceu, como naqueles dias de verão em que o sol brilha mais forte e faz com que a gente se sinta vivo. Estava frio lá fora, a mão dele ainda estava gelada, mas quando ela sorriu para ele o frio pareceu ir embora.

Eles eram assim, verão em meio ao inverno, os botões que insistem em florescer quando tudo fica seco. Eles eram a beleza e a cor, como a primavera. Não importa quanto frio faça lá fora, dentro deles o calor e a cor sempre dão um jeito de acontecer, assim, feito uma flor de inverno.

Esse post faz parte do projeto Pena & Tinta, um projeto de escrita com o objetivo de criar textos a partir de um tema predeterminado. Para participar é só acessar o grupo no Facebook.

O tema do mês foi “As Quatro Estações“. Para ler o outros textos acessem:
Bibliophiliarium | Girl From Oz | Percepções | Vanille Vie | Tantos Caminhos E Lugares | Um Pé No Chão Basta

Para o melhor pai do mundo

Em 10.08.2014   Arquivado em blogagem coletiva, Pessoal, Textos

carta pai

Eu poderia começar dizendo todos os clichês do mundo, agradecendo por zilhões de coisas e concluir com um “eu te amo”, mas não seria justo e nem suficiente.

Ser pai não deve ser fácil. Ser pai de alguém cabeça dura, respondona, teimosa e birrenta deve ser ainda mais difícil. Mas há 19 anos você vem exercitando a paciência, a compreensão e o bom-humor de uma maneira invejável. Será se dá para passar a receita ou isso vem no pacote “pai”?

A verdade é que eu sempre fui mais parecida com você do que com a mamãe, as semelhanças são tantas que as vezes é impossível bater de frente um com o outro, nos entender. Isso de ser mais intensa, dramática, ver sempre o lado bom das pessoas e até mesmo essa mania de sempre querer estar certa eu herdei de você. “É a cara do pai!”, mas também é o coração.  Perdi a conta de quantas vezes eu ouviu “é igual ao  pai” e senti orgulho; senti o ego inflando, aqui e ali, em mim e em você.

São tantas as coisas e momentos pelos quais devo agradecer que até me faltam palavras para demonstrar toda a gratidão. Assim como também são muitos pelos quais devo me desculpar, me redimir. Mas prefiro deixar que abraços e sorrisos cumpram essa função, de agradecer e também de pedir perdão. Prefiro deixar que lembranças felizes se façam cada vez mais presentes ao som de Djavan, Espatódea e todos os outros acordes que compõem nossa trilha sonora.

E hoje não teve camisas, bermudas ou carteiras, mas teve texto e teve amor, todinhos para o melhor pai do mundo. Porque hoje é um dia qualquer, como os outros 364 dias do ano. 365 dias dos pais.

pai

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva do Rotaroots

Destino

Em 10.06.2014   Arquivado em Textos

destino

Naquela tarde de fevereiro, quando os olhos dela vasculharam todo o ambiente e pararam diante dele, algo dentro dela já sabia. No primeiro diálogo, no primeiro desvio de olhar, no primeiro riso que escapou de seus lábios, ela já sabia. A gente sempre sabe. Porque os olhos apontam as evidências e o sorriso confirma.

Eles não se conheceram sem querer, não. Acaso é lenda, destino não. Ela não acreditava em amor à primeira vista, ele duvidava da existência do amor. Mas, quando seus olhos se encontraram, eles simplesmente souberam. Estavam destinados a ficarem juntos. Dois estranhos, dois opostos.

Quando ela desceu na estação central, atordoada por toda a confusão que aquela troca de olhares tinha causado em sua cabeça, ele correu atrás dela, tentando alcançá-la.

“Ei, seu livro!” ele gritou mas ela não ouviu. “Seu livro, você esqueceu!”, repetiu agora mais baixo, sem esperança de que ela escutasse.

Ele havia perdido o metrô, desceu na estação errada, estava longe de casa e tudo por uma moça com um livro esquecido. Uma moça que ele não conhecia, mas que por algum motivo lhe causava sensações estranhas.

E como num lapso de memória, de realidade, ela voltou correndo. O cabelo bagunçado pelo vento, uma urgência estampada no rosto. Parou em meio a multidão que entrava e saía apressada dos vagões até que novamente o olhar deles se cruzou. Sua expressão se aliviou, se tornou menos urgente, talvez um pouco feliz em encontrar um olhar agora conhecido.

“Seu livro”, ele voltou a repetir, “você esqueceu”. As mãos deles se tocaram, um espaço minúsculo entre o livro e a pele macia da mão dela. Um contato pequeno e breve, no entanto, suficiente para gerar uma onda gigantesca de energia e sensações.

“Obrigada”, ela agradeceu tímida; com os olhos agora fixos no chão. Ele sorriu para ela e arriscou um convite: “quer tomar um café?” “Não gosto de café”, ela respondeu ainda encarando o chão. “Talvez um chocolate?”, ele tentou mais uma vez, com o coração querendo saltar do peito. “Talvez um chocolate!”, ela assentiu sorrindo.

Ele juntou toda sua coragem e segurou a mão dela. Ela não soltou. Eles nem imaginam, mas foi naquele momento em que seus corações passaram a bater na mesma frequência.

Quando a mão dele segurou a dela, ela sorriu por dentro, satisfeita. Ela acreditou em amor à primeira vista, em “para sempre”.

Ele sorriu, feliz consigo mesmo. E então ele soube. No primeiro diálogo, no primeiro desvio de olhar, no primeiro riso que escapou de seus lábios, ele soube. E ele acreditou. Em destino, em amor, em tudo. Pela primeira vez na vida, ele acreditou em um “nós”.

 

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