Categoria "Textos"

Uma coleção de lugares 

Em 11.02.2017   Arquivado em Textos

Ela me disse que ia viajar o mundo e eu sempre imaginei como seria isso, sair por aí conhecendo pessoas e cores e histórias. Então ela me disse que me mandaria cartões postais de todos os lugares e assim eu viajaria com ela. 

Quando eles começaram a chegar eu me senti flutuando. 

Não sei quem são as pessoas naquelas imagens, mas sei por onde passaram. Imagino para onde estão indo. Eu invento histórias de gente que conheceu o amor da sua vida ali, naquela estação de metrô ou que descobriram o fim de um amor em cima daquela ponte. Ou um rapaz que tocou sua música pela primeira vez naquele pub da esquina com as calçadas bonitas. 

Me pergunto o que ela estava fazendo quando entrou na lojinha e me comprou aquele cartão. Por que aquele? O que chamou sua atenção naquela imagem em especial? E se ela deu boas e altas risadas naquele lugar e queria me transmitir a alegria que sentiu? Talvez ela tenha pensado que eu sentiria certa paz se estivesse sentada naquele banco. 

Abro a caixa. Eu coleciono lugares. Mas também coleciono histórias. E sentimentos. 

E então me dou conta de todas as viagens que fiz, dos lugares em que estive, das histórias que ouvi, dos sentimentos que senti, das pessoas que conheci. 

Puxo o ar. Tem algo novo. Tem algo bom. Tem vida. Vidas inteiras dentro de um único postal. Vidas inteiras dentro de mim. 

Marcéu azul

Em 23.10.2016   Arquivado em Textos

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Estou sentado no escritório da casa de praia. Comprei persianas. Muitas. Quem imaginaria que as janelas de vidro que eu tanto fiz questão de colocar aqui iam se tornar um incômodo. A imensidão do mar se estende por todo o campo de visão e, ironicamente, me sufoca.

Olhar para o mar dói. Porque o mar sempre me lembrou você. Tem a mesma cor dos seus olhos, e a calmaria que, quando menos se espera, se transforma em bravura, a maré me invadindo completamente.

Azul. Profundo. Intenso.

E de repente não é mais o mar que me encara, mas você. O azul dos seus olhos ficando mais escuro, mais cheio de força, de raiva. Querendo transbordar, mas você não deixa escapar nada pelas beiradas. A lembrança me atinge como uma onda surpresa.

Não consigo distinguir o que é o azul do mar e o que é o azul do céu, porque em algum ponto eles se tornam um só e isso é tão injusto, porque agora não consigo mais encarar o céu também. Não há mais azul pra mim. Nenhum tom dele.

Passei a trabalhar de portas e janelas fechadas, para ver se a dor diminuía. Não funcionou. A página continuou em branco. Pior do que qualquer bloqueio que já tive em trinta anos. Mas então hoje eu deixei tudo aberto. Deixei o sol entrar e refletir o azul do marcéu. E quase funcionou, no entanto, não refletiu o azul dos seus olhos.

Fecho as persianas de novo. Não há brecha para luz do sol. Não há mais mar ou céu. Ou marcéu. Ou você. Continua sufocante, com persianas abertas ou fechadas. Olho ao redor e percebo que falta um pouco de cor nessa casa, de luz para fazê-la refletir em todos os cômodos. Ou talvez esteja faltando cor na minha vida por inteiro.

O celular toca pela quinta vez, me lembrando de que a meta para hoje é de 400 palavras. Mas a página do livro continua em branco, e tudo que eu consegui preencher foram as linhas dessa carta que você sequer irá receber, porque o azul dos seus olhos agora me parece distante demais.

Já é noite quando consigo encarar o oceano a minha frente. A imensidão azul desapareceu. No escuro, em frente ao mar eu me sinto estranho. Sem cor.

 

Esse texto faz parte do Pena & Tinta, um projeto de escrita criativa que tem como objetivo a criação de textos (crônicas, contos, poesias, relatos pessoais etc…) em cima de temas predeterminados mensalmente. O tema de outubro escolhido por mim foi CORES.

Tem um blog e quer participar das próximas edições do Pena & Tinta? A gente está te esperando aqui: bit.ly/2dEXQEF

A promessa de nós dois

Em 14.09.2016   Arquivado em Textos

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Ele lhe sorriu quando a viu apoiar a pequena mala no chão, antes de carregá-la até ele.

Ela queria largar a mala ali mesmo e pular em cima dele, se perder em um abraço sem hora para sair. Mas em vez disso olhou para o chão e sorriu tímida.

Era incrível como, mesmo depois de 3 anos juntos, ela ainda sentia vergonha. Mas era uma vergonha bonita. Algo que simplesmente fazia parte dela e do seu jeito tímido e atrapalhado de ser. E, Deus, como ele amava a timidez dela. Como ela ficava linda com o rosto corado e o sorriso que tentava esconder ao olhar para o chão.

O coração batia acelerado e, nossa! Era impressão dele ou o caminho da sala de desembarque até o portão realmente havia aumentado? O relógio deveria estar quebrado, pois teimava em lhe dizer que não havia se passado nem 1 minuto desde o momento que ele sorriu para ela. Não era possível.

Seriam só dois dias. Um final de semana. Parecia tão pouco em meio a todos os meses que eles passavam separados. Mas significava muito. E ele faria valer cada minuto, como havia prometido a ela.

A história deles dois era composta por promessas. A primeira, feita por ele, foi de nunca, em hipótese alguma, brincar com os sentimentos dela. E então ela fez a segunda, de jamais abandoná-lo; e é surpreendente o tanto de significados que essa mesma promessa consegue assumir. Ao longo dos anos vieram outras. Prometeram sinceridade antes de tudo. Ele prometeu não mais deixar a toalha molhada em cima da cama e ela prometeu que não mais assistiria ao episódio semanal da série sem ele. E em meio a tantas promessas, desde as mais bobas às mais sérias, eles prometeram fazer dar certo. Mesmo com cidades inteiras entre eles. Mesmo com rotinas loucas e puxadas.

A prova de que eles vêm cumprindo cada uma dessas promessas estava ali diante de seus olhos, enquanto ele a observava caminhar em sua direção. E quando ela finalmente chegou – e ele jurou ter demorado horas! – ela se encaixou no abraço dele. Ela estava em casa.

As pessoas passavam apressadas com suas malas. Famílias se reencontravam. Voos eram anunciados e cancelados nos visores e alto-falantes. Mas eles não viam ou escutavam nada. Tudo que ele conseguia perceber era o cheiro do cabelo dela próximo ao seu nariz, e em como o corpo dela se encaixava perfeitamente ao dele, e em como seu coração agora batia mais devagar, sincronizado com o dela.

O abraço pareceu durar uma eternidade e, ainda assim, não foi suficiente para saciar a saudade. Nunca era, mesmo quando eles passavam férias inteiras juntos. Mas ainda era a melhor sensação do mundo. E quando ela se afastou um pouco, antes mesmo de separar o abraço, já estavam de mãos dadas. Ele carregando a mala dela com a mão livre, o sorriso ainda no rosto.

Ao saírem do aeroporto não foram para casa. Seguiram para o cinema, em busca de um filme qualquer, não importava, desde que eles pudessem ficar abraçados no escuro, a cabeça dela encostada no ombro dele. Depois foram para a pizzaria preferida dos dois, aquela onde comemoraram o primeiro dia dos namorados. Conversaram sobre a faculdade, as primeiras experiências profissionais e ela o ouviu contar histórias sobre os amigos que ela não via há meses. Os olhos dele nunca perdendo os dela. As mãos sempre entrelaçadas ou tocando um ao outro. O sorriso jamais deixava os rostos. Até o tempo parecia mais ameno, ventando de leve, bagunçando o cabelo dela para que ele pudesse afastar a mecha que fugiu quando se aproximou para beijá-la.

Ele conhecia todos esses clichês dos filmes de romance que ela o fazia assistir, mas ali, naquele momento, nada parecia clichê, por mais que o mundo inteiro dissesse o contrário. Para ele era saudade sendo dissipada aos poucos. Era o amor se tornando palpável.

E então finalmente foram para casa, depois de um dia inteiro dedicado unicamente aos dois. Amanhã eles estariam com as famílias reunidas, e talvez, com sorte, teriam algum tempo sozinhos novamente antes de levá-la de volta para o aeroporto. Mas agora, tudo que existia e importava era ele e ela, juntos. No mesmo lugar. Sem quilômetros os separando.

Ela sequer conseguia sentir cansaço, por mais longa que tenha sido a viagem. Estar ao lado dele renovava suas energias de tal forma que ela poderia passar a noite inteira acordada. Mas, naquele momento, se permitiu dormir profundamente, deitada sobre o peito dele, enquanto ele lhe acariciava os cabelos.

Eles fariam dar certo. Cumpririam a promessa. Dariam um jeito. E tudo terminaria bem. Ou sequer terminaria. Era esse o plano, afinal.

Esse texto foi inspirado pela leitura do livro A Geografia de Nós Dois, da autora Jennifer E. Smith.

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