Categoria "Livros"

Livro | O Menino Feito de Blocos

Em 09.03.2017   Arquivado em Livros

Eu sou fascinada pelo autismo, no sentido de ser uma área em que eu realmente tenho vontade de atuar, dentro da minha futura formação em Psicologia. Quando a Ana comentou que O Menino Feito de Blocos tinha como personagem uma criança autista eu imediatamente providenciei um exemplar do livro para mim.

O interessante é ver a história ser contada do ponto de vista do pai de Sam, Alex. Parece que tudo na vida dele está desmoronando. Passando por uma crise no casamento, Alex vive o que ele chama de “divórcio experimental”, e muda-se para a casa do melhor amigo de infância, Dan. Como se não bastasse, está há oito anos em um emprego que não condiz com sua formação acadêmica, e acaba de ser demitido. De repente Alex se vê sem emprego, sem casa, sem a esposa e sem nenhuma perspectiva. Mas antes de tudo, seu pensamento vai para o filho, como tem acontecido nos últimos oito anos. Sam é autista e manter a casa, a alimentação restrita do filho, a escola e o tratamento não é nada barato. Alex precisa de um emprego. Mas o que Alex não sabe é que o que ele e o filho precisam mesmo é se conectarem um com o outro.

Para Alex, o filho é um verdadeiro mistério que ele tem dificuldade em desvendar. Altos níveis de estresse, humor oscilante, sensibilidade elevada para sons, uma rotina extremamente metódica. “Sam é um turista no nosso mundo, um viajante desorientado sem noção das peculiaridades e dos costumes do lugar. (pág. 143)“. Alex precisa se conectar com o filho, para só assim entendê-lo e, quem sabe, salvar o seu casamento e, se não, não perder também o filho no processo do divórcio. E para isso, no meio do caminho, Alex descobre que talvez precise embarcar em um processo de autoconhecimento.

“O medo do espaço, da liberdade, da incerteza – é assim que venho me sentindo nos últimos três meses, isolado de tudo o que significa alguma coisa para mim. Eu não tinha pensado nisso antes, em como o autismo é uma versão amplificada e muito centrada de como todos nos sentimos, das ansiedades que todos temos. A diferença é que o restante de nós esconde tudo sob camadas de negação e de condicionamento social.”

Alex tem um passado do qual ele prefere fugir, e isso acaba atrapalhando em suas relações com as outras pessoas, em especial com o filho e com a irmã. Na verdade, Emma, a irmã de Alex, também encontrou sua maneira de fugir desse passado. E, de repente, a família inteira se torna uma reunião de completos desconhecidos.

Outra coisa que Alex também não esperava era que seria um jogo de video game o responsável por conectar pai e filho. Ele descobre no Minecraft uma forma de construir um mundo particular, o “mundo do papai e do Sam”. E é impossível não se emocionar junto com Alex ao notar os sinais de avanço em Sam; as palavras novas que começam a preencher seu vocabulário restrito, a coragem para enfrentar desafios e medos, a abertura para novas amizades e, principalmente, a abertura para diálogos entre pai e filho.

Outros personagens também se misturam ao processo de autoconhecimento de Alex, e acabam embarcando no seu próprio processo. Emma parece tentar se fixar às pessoas importantes da sua vida, Dan cria coragem para assumir seus sentimentos e Jody, a esposa de Alex, finalmente embarca numa jornada em busca dos seus sonhos.

O Menino Feito de Blocos é um livro que fala sobre família, sobre luto, sobre o autismo e também sobre enfrentar riscos. Mas, mais do que isso, instiga o leitor quanto a uma velha questão que gostamos de debater nos cursos de saúde: “quem cuida de quem cuida?” O casamento de Alex e Jody entra em crise porque após o nascimento do filho autista eles deixaram de viver por eles mesmos. Jody parou de trabalhar para se dedicar inteiramente a Sam. Alex se engajou em um emprego que não o fazia feliz simplesmente porque precisava do dinheiro para pagar as despesas do filho e com isso, abdicou totalmente da rotina de sua criança. E então chegou o inevitável momento em que o casal não tinha outro assunto a falar que não fosse Sam. A escola do Sam, as crises de Sam em público, a alimentação de Sam, a terapia de Sam. Eles se recusavam a enxergar o filho como um ser independente.

“(…) E experimento um instante peculiar e chocante de clareza: Sam é um ser humano separado de mim, separado até de Jody. Não é um problema a ser resolvido, um compromisso na minha agenda, outro elemento preocupante da minha lista diária de afazeres. Ele é uma pessoa, e em algum lugar em sua mente estão suas próprias ideias, suas prioridades, suas ambições para o futuro.”

Não é novidade que sempre me envolvo com esse tipo de história, que aborda um fato comum mas não discutido em nossa sociedade, por tabu ou por achar simplesmente que não vende. O Menino Feito de Blocos é um livro bem importante, que conta tudo com muito bom humor, uma linguagem simples e extremamente atual, mas sem deixar de lado a sensibilidade e a emoção que toda relação pai e filho carrega. E talvez eu tenha choramingado um pouco no final, mas sorri também.

Ficha Técnica:

O Menino Feito de Blocos
Título Original: A Boy Made of Blocks
Autor: Keith Stuart
Páginas: 377
Editora: Record

Autorretrato: menina se encanta pelo livro do Destino

Em 12.11.2016   Arquivado em Livros, Pessoal

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Depois de passearem pelo Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, Noah e Jude finalmente chegaram à minha casa, aqui no Piauí. Trouxeram muita poesia e muita arte pra minha vida, através das palavras de Jandy Nelson. E hoje eu sei que foi obra do Destino, eu precisava ler esse livro.

“Afinal, quem sabe? Quem sabe alguma coisa? Quem sabe quem está no controle? Ou o quê? Ou como? Quem sabe se o destino é apenas como você conta para si mesmo a história da sua vida? (…) Ninguém sabe. Assim combatemos os mistérios, cada um do seu jeito. E alguns de nós conseguimos flutuar em torno de um mistério e nos sentimos em casa.”

Eu Te Darei o Sol conta a história de dois irmãos gêmeos que costumavam ser inseparáveis, até começarem a competir não só pela atenção dos pais, mas também por uma vaga na melhor escola de Arte da Califórnia. Uma tragédia acaba transformando suas vidas e suas personalidades, engolidos pelo ciúme, insegurança e mal-entendidos.

“Ou talvez uma pessoa seja feita de várias pessoas. Talvez estejamos acumulando novas personalidades o tempo todo. – Carregando-as ao fazermos nossas escolhas, boas e más, enquanto erramos, organizamos, perdemos a cabeça, encontramos nossa cabeça, desabamos, nos olhamos no mundo, ao criarmos coisas e destruirmos coisas”.

Narrados pelos pontos de vista de Noah, no passado, e Jude, no presente, a história vai se misturando e se moldando em uma perspectiva de tempo não linear, bagunçando nossa cabeça e nos envolvendo completamente. Noah desenha retratos e autorretrados dentro e fora da sua mente em todas as situações da sua vida, porque ele é o impulso arrebatador. Jude escreve sua própria Bíblia, completando os mantras e lições da avó já falecida e sua única amiga. Ela escreve seu próprio Destino mesmo quando acha que está indo contra ele.

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Como diz na própria capa, “o amor é apenas a metade da história“, porque a outra metade nos fala sobre perdas, inseguranças, autoaceitação e perdão. É um livro sobre relações familiares, sejam elas entre irmãos ou entre pais e filhos ou entre os próprios pais. Eu Te Darei o Sol alimenta a minha crença de que as pessoas entram em nossa vida por um motivo, porque afinal, “talvez algumas pessoas simplesmente tenham sido feitas para estar na mesma história“.

A escrita de Jandy é tão encantadora que quando menos me dei conta já havia gastado metade  do bloquinho de post-its. São passagens poéticas e metáforas visuais que despertam o melhor da nossa imaginação e nos permite ler em cores e visualizar todos os desenhos de Noah e as esculturas de Jude. Mas, acima de tudo, nos permite sentir. Porque é um livro lotado de emoções intensas, que se misturam e se confundem ao longo dos capítulos.

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Vez ou outra, a trama cai em alguns clichês dos YA, mas longe de mim reclamar. Porque clichê nenhum seria capaz de diminuir a beleza ou a importância dessa história. Me atrevo a dizer até que alguns desses clichês a tornaram ainda mais irresistível.

A minha experiência com esse livro foi ainda mais incrível porque Eu Te Darei o Sol adora viajar e chegou até mim recheado de comentários divertidos e pessoais da Débora e da Tici. Poder interagir com as meninas e conversar com elas pelas páginas do livro foi algo maravilhoso e tornou a leitura ainda mais especial. Das minhas mãos ele segue para as da Nina, de volta ao Rio Grande do Sul, para pintar novos retratos e autorretratos, dando continuidade a Profecia, até todas nós encontrarmos o Ralph.

“Viro-me, lembrando novamente que fomos feitos juntos, célula a célula. Somos a companhia um do outro desde quando não tínhamos ainda olhos ou mãos. Antes mesmo de termos alma”.

 

Mente sã, corpo são

Em 10.10.2016   Arquivado em Livros, Psicologia

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Dez de Outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental. Depois do #SetembroAmarelo, ainda ganhamos um dia inteirinho dedicado a saúde mental. Mas deveria ser uma vida inteira, e não um único dia. Precisamos falar sobre o suicídio, sobre a depressão, sobre o TOC, os transtornos de personalidade. Porque tudo isso faz parte do nosso dia-a-dia e tem gente aí do seu ladinho que pode provar isso. Aliás, nem precisa olhar para o lado, basta olhar para dentro. Você está cuidando da sua saúde mental?

O tema ainda é tabu, considerado por alguns como besteira. Outros dizem que cuidar da saúde mental é luxo. E talvez nem passe pela cabeça de vocês o tanto de absurdo, preconceito e piada que eu escuto diariamente sobre saúde mental e sobre a profissão que escolhi por amor. Não é fácil, mas aos pouquinhos a gente vai derrubando esse muro.

Ontem mesmo eu estava lendo Uma História de Amor e TOC e é realmente angustiante acompanhar o dia-a-dia de uma pessoa que sofre disso. Todas as compulsões e obsessões, as dificuldades que envolvem não apenas enfrentar o transtorno, mas também escondê-lo dos outros, numa tentativa de viver uma vida normal e fugir dos deboches e preconceitos. Foi uma leitura que me acrescentou muito, mas também foi um pouco pesada, confesso, mesmo se tratando de um YA. Para aliviar, eu peguei Amy & Matthew, na esperança de que fosse só mais um romance leve. E adivinhem, um dos personagens também tem TOC e o outro vive numa cadeira de rodas e fala através de um computador.

Não sei se é coincidência eu ter lido tantos livros que abordam temáticas psicológicas nesse ano ou se realmente são os escritores e editoras estão investindo em livros que seguem essa linha. Prefiro acreditar que é a segunda opção. Ver por esse lado me deixa feliz, porque penso que estamos dando pequenos passos em direção ao conhecimento, ao fim do tabu e dos preconceitos; em direção a construção de uma sociedade que leva mais a sério a saúde mental, que percebe e se deixa tocar por histórias mesmo que fictícias, contadas nos livros. Já é um importante passo para abrir nossos olhos, despertar a sensibilidade adormecida.

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Comecei o ano lendo Suicidas e vendo, pelas palavras de um jovem autor brasileiro, que a mente da gente funciona de uma maneira bem difícil de compreender, que ninguém está livre de pensamentos impulsivos e destrutivos. E então eu me emocionei com a história de Violet e Theodore em Por Lugares Incríveis e, mesmo depois de tantos meses, ainda não consigo expressar em palavras o quanto esse livro me mudou. Acompanhei a aventura de Mim, em Mosquitolândia e a luta com seus remédios controlados. Reli Como Eu Era Antes de Você e, mais uma vez, vi a vida pelos olhos do Will. Entendi um pouco mais sobre o transtorno de ansiedade social em À Procura de Audrey e vivi de perto, junto com ela, as dificuldades em socializar, interagir. Síndrome Psíquica Grave ainda me aguarda aqui na estante e confesso que não faço ideia do que vou encontrar, mas tenho a impressão de que também terminará em aprendizagem e mais uma dose de compreensão e sensibilidade.

O dia está quase no fim quando escrevo esse post, mas não deixem o assunto morrer por aqui. A proposta que quero lhes fazer é outra totalmente diferente e inclui olhar mais para o próximo e também para si, e valorizar sua saúde mental. Não deixem que a rotina corrida da escola, faculdade ou trabalho suguem todas as suas forças e ânimo. De vez em quando faz bem parar para ler um livro, ir ao cinema, sair com os amigos e com a família. De vez em quando faz bem cuidar de si, e não só das feridas visíveis no corpo, mas também daquelas da mente, da alma.

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