A promessa de nós dois

Em 14.09.2016   Arquivado em Textos

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Ele lhe sorriu quando a viu apoiar a pequena mala no chão, antes de carregá-la até ele.

Ela queria largar a mala ali mesmo e pular em cima dele, se perder em um abraço sem hora para sair. Mas em vez disso olhou para o chão e sorriu tímida.

Era incrível como, mesmo depois de 3 anos juntos, ela ainda sentia vergonha. Mas era uma vergonha bonita. Algo que simplesmente fazia parte dela e do seu jeito tímido e atrapalhado de ser. E, Deus, como ele amava a timidez dela. Como ela ficava linda com o rosto corado e o sorriso que tentava esconder ao olhar para o chão.

O coração batia acelerado e, nossa! Era impressão dele ou o caminho da sala de desembarque até o portão realmente havia aumentado? O relógio deveria estar quebrado, pois teimava em lhe dizer que não havia se passado nem 1 minuto desde o momento que ele sorriu para ela. Não era possível.

Seriam só dois dias. Um final de semana. Parecia tão pouco em meio a todos os meses que eles passavam separados. Mas significava muito. E ele faria valer cada minuto, como havia prometido a ela.

A história deles dois era composta por promessas. A primeira, feita por ele, foi de nunca, em hipótese alguma, brincar com os sentimentos dela. E então ela fez a segunda, de jamais abandoná-lo; e é surpreendente o tanto de significados que essa mesma promessa consegue assumir. Ao longo dos anos vieram outras. Prometeram sinceridade antes de tudo. Ele prometeu não mais deixar a toalha molhada em cima da cama e ela prometeu que não mais assistiria ao episódio semanal da série sem ele. E em meio a tantas promessas, desde as mais bobas às mais sérias, eles prometeram fazer dar certo. Mesmo com cidades inteiras entre eles. Mesmo com rotinas loucas e puxadas.

A prova de que eles vêm cumprindo cada uma dessas promessas estava ali diante de seus olhos, enquanto ele a observava caminhar em sua direção. E quando ela finalmente chegou – e ele jurou ter demorado horas! – ela se encaixou no abraço dele. Ela estava em casa.

As pessoas passavam apressadas com suas malas. Famílias se reencontravam. Voos eram anunciados e cancelados nos visores e alto-falantes. Mas eles não viam ou escutavam nada. Tudo que ele conseguia perceber era o cheiro do cabelo dela próximo ao seu nariz, e em como o corpo dela se encaixava perfeitamente ao dele, e em como seu coração agora batia mais devagar, sincronizado com o dela.

O abraço pareceu durar uma eternidade e, ainda assim, não foi suficiente para saciar a saudade. Nunca era, mesmo quando eles passavam férias inteiras juntos. Mas ainda era a melhor sensação do mundo. E quando ela se afastou um pouco, antes mesmo de separar o abraço, já estavam de mãos dadas. Ele carregando a mala dela com a mão livre, o sorriso ainda no rosto.

Ao saírem do aeroporto não foram para casa. Seguiram para o cinema, em busca de um filme qualquer, não importava, desde que eles pudessem ficar abraçados no escuro, a cabeça dela encostada no ombro dele. Depois foram para a pizzaria preferida dos dois, aquela onde comemoraram o primeiro dia dos namorados. Conversaram sobre a faculdade, as primeiras experiências profissionais e ela o ouviu contar histórias sobre os amigos que ela não via há meses. Os olhos dele nunca perdendo os dela. As mãos sempre entrelaçadas ou tocando um ao outro. O sorriso jamais deixava os rostos. Até o tempo parecia mais ameno, ventando de leve, bagunçando o cabelo dela para que ele pudesse afastar a mecha que fugiu quando se aproximou para beijá-la.

Ele conhecia todos esses clichês dos filmes de romance que ela o fazia assistir, mas ali, naquele momento, nada parecia clichê, por mais que o mundo inteiro dissesse o contrário. Para ele era saudade sendo dissipada aos poucos. Era o amor se tornando palpável.

E então finalmente foram para casa, depois de um dia inteiro dedicado unicamente aos dois. Amanhã eles estariam com as famílias reunidas, e talvez, com sorte, teriam algum tempo sozinhos novamente antes de levá-la de volta para o aeroporto. Mas agora, tudo que existia e importava era ele e ela, juntos. No mesmo lugar. Sem quilômetros os separando.

Ela sequer conseguia sentir cansaço, por mais longa que tenha sido a viagem. Estar ao lado dele renovava suas energias de tal forma que ela poderia passar a noite inteira acordada. Mas, naquele momento, se permitiu dormir profundamente, deitada sobre o peito dele, enquanto ele lhe acariciava os cabelos.

Eles fariam dar certo. Cumpririam a promessa. Dariam um jeito. E tudo terminaria bem. Ou sequer terminaria. Era esse o plano, afinal.

Esse texto foi inspirado pela leitura do livro A Geografia de Nós Dois, da autora Jennifer E. Smith.