Uma coleção de lugares 

Em 11.02.2017   Arquivado em Textos

Ela me disse que ia viajar o mundo e eu sempre imaginei como seria isso, sair por aí conhecendo pessoas e cores e histórias. Então ela me disse que me mandaria cartões postais de todos os lugares e assim eu viajaria com ela. 

Quando eles começaram a chegar eu me senti flutuando. 

Não sei quem são as pessoas naquelas imagens, mas sei por onde passaram. Imagino para onde estão indo. Eu invento histórias de gente que conheceu o amor da sua vida ali, naquela estação de metrô ou que descobriram o fim de um amor em cima daquela ponte. Ou um rapaz que tocou sua música pela primeira vez naquele pub da esquina com as calçadas bonitas. 

Me pergunto o que ela estava fazendo quando entrou na lojinha e me comprou aquele cartão. Por que aquele? O que chamou sua atenção naquela imagem em especial? E se ela deu boas e altas risadas naquele lugar e queria me transmitir a alegria que sentiu? Talvez ela tenha pensado que eu sentiria certa paz se estivesse sentada naquele banco. 

Abro a caixa. Eu coleciono lugares. Mas também coleciono histórias. E sentimentos. 

E então me dou conta de todas as viagens que fiz, dos lugares em que estive, das histórias que ouvi, dos sentimentos que senti, das pessoas que conheci. 

Puxo o ar. Tem algo novo. Tem algo bom. Tem vida. Vidas inteiras dentro de um único postal. Vidas inteiras dentro de mim. 

La La Land: to the ones who dream

Em 14.01.2017   Arquivado em Cinema, Pessoal

Eu sempre acreditei no poder da Arte de retratar vidas. De mudá-las. De melhorá-las. La La Land é um pouco sobre a minha vida, sobre sonhos, paixões e pesamentos que eu e Mia Dolan compartilhamos desde crianças. Foram muitos meses de espera pelo filme que eu sentia com todo o meu coração que seria incrível. E foi. E é.

Dois dias depois de vê-lo na estréia – e há dois dias de vê-lo novamente -, eu ainda não sei bem como organizar as ideias e as palavras. Talvez eu deva começar por todos as indicações e prêmios que o filme vem conquistando desde o Festival de Veneza até a torcida pela presença em peso na lista do Oscar no final do mês, passando por  7 Golden Globes. Mas, muito mais do que inúmeras indicações e vitórias, La La Land conquistou atenção e reconhecimento para um gênero um tanto ignorado: o gênero musical, que é um dos meus preferidos, que eu sempre defendi com unhas e dentes e tanto me esforcei para que as pessoas ao meu redor dessem uma chance. Finalmente está acontecendo.

Quem vemos no palco recebendo os prêmios são rostos jovens, orgulhosos pelo trabalho que fizeram. Um roteiro de uma simplicidade  e sinceridade incríveis, com personagens carismáticos e verdadeiros. Tão verdadeiros que eu e Mia nos confundimos quase que o tempo todo.

Visualmente falando, La La Land é um dos filmes mais perfeitos que já vi. Cores vibrantes combinadas a lindos cenários e uma fotografia de tirar o fôlego. A vontade é de pular para dentro da tela e morar ali, para sempre. A presença de cenas mais teatrais só torna tudo ainda mais bonito. Somos transportados para Los Angeles, a cidade das estrelas realmente brilhando apenas para nós. As coreografias, embaladas pelo jazz puro, nos desafiam a permanecer sentados. Não é tarefa fácil. E nem sei por onde começar a descrever a cena do observatório, só mesmo vendo para entender.

As músicas são lindas e envolventes, e os duetos só colaboram para a química natural de Emma e Ryan. E por falar em Emma Stone, a moça está ainda mais linda, esbanjando talento com sua voz doce e seu jeitinho fofo e divertido. Confesso que esperei o filme inteiro por uma cena que fizesse Ryan Gosling merecedor do Globo de Ouro de melhor ator. Ela não veio. Mas isso não quer dizer que sua atuação está ruim, ela apenas se mantém do início ao fim, sem altos e baixos. Gosling, no entanto, compensa não só com a beleza, mas com o talento no piano.

E por falar em música, se vocês estavam na mesma sessão do cinema que eu e ouviram uma vozinha cantarolando todas as músicas, so sorry, era eu mesma. Passei quase 1 mês com a soundtrack no repeat me preparando para este momento.

Damien Chazelle mostrou mais uma vez que sabe o que está fazendo e não entra para perder. Como diretor ele fez um excelente trabalho, em todos os aspectos. Mas eu preciso, mais uma vez, falar sobre o roteiro. E registrar aqui o meu muito obrigado. Obrigada por preservar minha crença de que uma pessoa pode tocar outras com suas palavras, com suas criações. Obrigada por criar uma personagem que me representou em vários níveis. Obrigada por levar o gênero musical a grandes premiações, se utilizando de uma ideia inédita, sem precisar adaptar grandes clássicos. Obrigada pela obra de Arte que é La La Land. Como bem dito em seu discurso no último domingo, no Golden Globe, e no título de uma das músicas, esse é um filme para os fãs de musicais, para os tolos que sonham.

Imagem de Amostra do You Tube

Eu amo Sherlock Holmes e vou protegê-lo

Em 06.01.2017   Arquivado em Séries, Sherlock

Sherlock Holmes foi um importante personagem na minha iniciação no mundo dos livros. Inspirada pelos contos de mistério da Coleção Vaga-Lume, eu decidi ler O Cão dos Baskerville. E isso já faz tanto tempo que eu preciso reler o livro, pois não lembro de quase nada. O fato é que, além de incentivar meu vício em livros, eu acabei buscando o personagem de Conan Doyle fora da literatura. Assisti aos filmes com o Downey Jr, até que cheguei na série que hoje é meu xodó: Sherlock, da BBC.

E nem preciso dizer o quanto essa série significa pra mim, o quanto ela liderou completamente o meu intercâmbio (você pode ver sobre a Sherlock Exhibition, sobre o Museu do Sherlock e sobre minha experiência numa setlock), o quanto ela me conectou com pessoas incríveis, sendo uma delas uma das melhores amigas que eu poderia ter.

Aproveitando o ensejo, já que estamos falando na série Sherlock, fomos abençoados com uma temporada novinha no último domingo, depois de um hiatus de praticamente 3 anos. É para glorificar de pé, igreja! E mais do isso, fomos abençoados também com um dos melhores character development da história da televisão, de verdade.

A ideia que tentaram nos vender, na grande maioria das vezes, é a de um Sherlock Holmes prepotente e muitas vezes arrogante, sempre querendo impressionar a todos com sua inteligência; uma pessoa fria, insensível e antissocial, até mesmo assexuado e incapaz de amar. Mas a verdade é que, se olharmos direitinho, se nos desafiarmos a entrar um pouquinho no mundo de Holmes, vamos perceber que por trás disso tudo há um ser humano com sentimentos, como todo mundo. E percebemos que ele é muito mais do que um sociopata altamente funcional.

Eu já falei que The Sign of Three é talvez o meu episódio preferido da série até aqui, exatamente por mostrar esse lado mais humano do Sherlock. É aos poucos, ao longo do seriado, que vamos acompanhando o crescimento do personagem, a sua humanização. Na importância que ele dá às pessoas com quem convive e na preocupação em protegê-los acima de qualquer coisa, estejam eles vestidos em um colete-bomba, ou na mira de um atirador profissional ou perseguidos por causa de um passado obscuro. Não importa quanto tempo seu melhor amigo deixe de falar com ele, ou que alguém do seu ciclo de amizades tenha lhe dado um tiro, Holmes está sempre ali, tentando agir a um passo a frente de todos, sem medir esforços – mesmo que seja preciso forjar a sua morte por anos -.

O primeiro episódio da nova temporada nos presenteia com um Sherlock cada vez mais humano e fiel aos amigos. Um Sherlock que cuida de bebês e passeia com cachorros, que troca palavras de carinho com sua senhoria e que chama o amigo pelo nome apenas para vê-lo feliz. Um Sherlock que perde o foco e se deixa cegar pelo que inicialmente parece ser pretensão, mas na verdade é a urgência de salvar o casamento, a família e a sanidade do seu melhor amigo. Um Sherlock que desaba e vai parar na terapia.

E eu tentei segurar ao máximo os spoilers até aqui, mas me sinto no dever de tocar nesse ponto da terapia. A série da BBC não só nos leva para o 221B da Baker Street do século XXI como também leva um dos personagens mais icônicos da literatura, famoso por nunca precisar de ajuda, por sempre saber de tudo, para um set terapêutico. Vocês conseguem perceber a dimensão disso? A importância disso? O quanto isso significa positivamente (!!) no gráfico do character development do personagem?

Nosso William Scott Sherlock Holmes (que aparentemente também é um nome de menina!) é um ser humano como eu e você. Alguém que sente e, mesmo em raras ocasiões – mesmo que por um pouquíssimo intervalo de tempo -, se deixa levar pelo coração em vez da razão. E isso é bonito demais! E em momento algum descaracteriza o personagem ou diminui a credibilidade da série, muito pelo contrário.

John, Molly, Greg e Mrs. Hudson batalharam demais para que Sherlock chegasse até aqui. Mark Gatiss, Steven Moffaat e eu também. E por mais doloroso que seja, me atrevo a dizer que não só precisávamos de um Sherlock sofrendo, como também queríamos muito ver isso acontecer. E ainda bem que aconteceu. Porque a vida é assim mesmo, cheia de reviravoltas, e uma hora achamos que somos o John do nosso círculo de amigos e na outra estamos com raiva dele e pensando que talvez sejamos o Sherlock. Eu não acredito que amo Sherlock Holmes e vou protegê-lo. Mas estou feliz que precise.

 

Coincidentemente, esse post foi publicado no dia do aniversário do personagem. O Sherlock dos livros comemora 163 anos no dia 6 de janeiro, enquanto o da série sopra a sua 40º velinha. Parabéns, Mr. Holmes. E obrigada por tudo.

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